Sedimento fino

Sou argila,
sedimento fino em suspensão.
Toda intempérie me carrega.
Parte de mim é erosão.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Sem título

Eu sou um rio fluindo em você
-você-pedra- e sigo até o mar.
E eu deságuo, obviamente, em você-mar.
Mas você é todo o curso,
da nascente até a foz.
Curso sem cachoeira,
sem o beijo cascata em você-pedra.

O primeiro beijo cascata
do rio em pedra,
na verdade,
parece não ocorrer
-pela altura da cachoeira
ou porque a água evapora antes do toque.

Fui cascata em você pra quê?
Pra me enrolar?
Pra afluir mais rio e não te fluir?
Pra meandrar sem fim após a queda
-sem jamais desaguar?

Água vem das montanhas, das nascentes,
e eu-lago, logo cavo, cavo,
para não transbordar.
Difícil não transbordar.
Difícil não fluir.
Difícil ser lago.
Difícil ser rio.
Difícil.

Sem título

Preciso combinar palavras,
traduzir sentimentos,
viver você, viver nós dois,
sentir
para poder transformar.
Preciso do seu amor e do meu amor,
de nós enraizados e emaranhados...
Entrelaçados, nos perdendo em nós mesmos,
nos encontrando perdidos,
nos sentindo muito bem encontrados,
perdidamente,
nas duas verdades.

Sem título

Para que você veja
a beleza que vêem meus olhos: a tua beleza,
eu preciso ser preciso.
Dar asas aos sentimentos,
torná-los palavras.

Não posso te dar meus olhos,
mas posso te dar minha visão
-de diferentes ângulos, vejo beleza em todos.
Posso cantar tua beleza em meus poemas...
Eu preciso ser preciso.


Ao longo do que chamamos de tempo,
infinitamente,
ao longo da existência,
da presença,
dos efeitos em minha mente,
em meus olhos... Você se manifesta.

E o resultado disso é lindo,
uma lei e um juramento.
Lei orgânica do meu organismo
e, se não compartilho, morre comigo,
sem efeito no universo,
sem função.

Descompasso

Nossos tempos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Chamado à minha terra

Me sinto como se devesse
cantar à minha terra.
Cantar como se canta às plantas,
com luz, água e minerais.
A terra só chama quando se está disposto a ir.
Hoje a minha terra me chamou
para que eu possa cantá-la.
Ainda cantarei a minha terra:
Rios de saudades caudalosas;
Corredeiras de ânsias a desabar em cataratas;
Cachoeiras de vida.
Assim cantarei, desaguando, mas em continente.
Afluente da minha terra,
alimentando raízes, galhos e folhas.
Serei polpa.
Fruto e sementes.
E minha poesia, nutrientes.

sábado, 30 de julho de 2011

Dipolar

Se damos certo,
é porque eu sei receber o que tens a dar
e dou-te o que necessitas ganhar.
É porque sabes receber o que tenho a dar
e dá-me o que necessito ganhar.
E assim a roda gira viva
em nosso mundo covalente.

Amor: Sentimento egoísta?

Muitos tentam explicar o amor. Muitos emitem seus pontos de vista a respeito desse sentimento. Mas há um ponto de vista, o qual não concordo, que fataliza o amor como egoísta. Convenhamos que, quando se está amando, o corpo produz algumas substâncias, hormônios, que provocam sensação de prazer. Talvez, querer sentir prazer seja egoísta. Porém, a sensação do prazer é uma consequência do amor. Tenho isso como um mecanismo da natureza para garantir a perpetuação da espécie. Imaginemos, se o sexo não proporcionasse prazer, a perpetuação da espécie estaria comprometida, de certa forma. Haveria riscos palpáveis a perpetuação. E se não houvesse prazer na alimentação? E a degustação? Para os mais sensíveis, e se não fosse prazeroso sentir o ar a cada preencher dos pulmões? O fato de possuirmos órgãos sensoriais e de sentirmos prazer para algumas coisas e para outras não... Para outras, dor... O fato de sentirmos o doce, o salgado, o amargo e o azedo... O fato da existência dos sabores... Tudo isso são mecanismos utilizados pela natureza para que haja harmonia no universo.
Voltando ao amor, sentimento divino, o meu ponto de vista dita que, se a natureza não tratasse de espalhar esse sentimento no mundo biótico e se, principalmente, não tratasse de atribuir determinados efeitos colaterias a esse sentimento, não seria tão interessante aos indivíduos amar. Amar o próximo. O próximo amar. Amar e sentir prazer por isso. Amar uma mulher... Haver reciprocidade e, então, conexão. Então, não é egoísta amar. É consequente o prazer que se sente ao amar. A natureza que encontrou uma maneira de tornar o amor viciante. E, se cada indivíduo quiser ser um pouco "egoísta", estaremos todos amando, uns aos outros.