Sedimento fino

Sou argila,
sedimento fino em suspensão.
Toda intempérie me carrega.
Parte de mim é erosão.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sem título

Num intervalo,
num ponto de confusão,
a estrutura e os póros se abrem
e há lugar para a ligação.
No ponto da fusão,
o dengo se confunde com o assanho,
e o atrito da mistura,
a altas pressão e temperatura,
do sódio ao cálcio,
não se sabe até quando a solução é sólida
e quando entra a carne do potássio.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Nem sempre, meu amigo

Nunca se esqueça que, bem possivelmente, a vida real, muitas vezes, é deveras cruel. E que nunca na vida os caminhos - a sorte - serão como nos filmes, seriados e novelas. Nem sempre saímos correndo, munidos de pouca sensatez e muita paixão, desgovernados, lidando com o trânsito louco da cidade, pagando (nem sempre a gente tem dinheiro pra isso) ao taxista e/ou ao motoboy mais loucos da cidade -"fica com o troco!" -, cruzamos caminhos impossíveis e alucinantes - improváveis! -, chegamos no aeroporto antes do avião da amada decolar, fazemos um discurso e uma declaração magníficos, numa maravilhosa demonstração de oratória, e conseguimos reconquistá-la. Mas, lhe digo, meu amigo, que, às vezes, conseguimos sim, realizar todas essas façanhas. Mas, daí a ela querer voltar... E, como a esperança é a última que morre, ela pode até voltar. Só não lhe prometo os aplausos de todas aquelas pessoas que estão te assistindo no aeroporto, as mesmas que - gentis que são e que não perderiam, jamais, uma linda história de amor e reconquista - lhe deram passagem em sua manobra impossível e alucinada e que contribuíram, de todas as formas, com o seu esforço.

Ou seja, nem sempre o trânsito é bom; nem sempre o taxista pode fazer milagres; nem sempre lhe darão passagem na multidão do aeroporto; nem sempre ela vai voltar; e, se voltar, nem sempre irão aplaudir.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sem título

Na forma de uma primeira manifestação - neste ano -, reconheço que posso estar em um momento diferente. Antes, acreditava fazer parte de uma "escola", porém, percebi que o que existe são momentos. Momentos na vida, numa trilha que se segue, na qual estamos inseridos. Meu "momento atual" não é o mesmo de ontem. Sendo assim, aguardo o nascimento de novos poemas, sob novas perspectivas, sobre novos sentimentos. Aguardo novas orientações. Uma nova "escola", talvez. Uma nova poesia, não igual a de ontem, nem igual a de amanhã, mas uma poesia do momento.


-Achei importante me manifestar pela primeira vez neste ano.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sem título

Já fui retirado de casa uma vez,
arrancado, violentamente,
como um animal.
Enjaulado, arrastado pelas terras estranhamente
verdes, férteis, quentes,
porém, secas, inóspitas e pedregosas do desperdício.
E atearam fogo na minha querida cidade,
Onde tudo queimou.
E nem assim olhei pra trás.
Jamais olhei pra trás,
até ser expulso da jaula
com a mesma violência a qual fui capturado.
E, quando me deparei com a realidade da
natureza do lugar o qual estive todo o tempo,
vi apenas ausência de cor, secura e pedras roladas.
Hoje, após ter regressado à minha pequena cidade,
e resgatado das cinzas as lembranças,
percebo o intervalo
entre ser posto numa jaula, violentamente,
e entrar numa jaula como voluntário.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Sem título

Vão no tempo.
Vão-se as palavras
pelo vão da estabilidade.
E o equilíbrio reside no momento
de um buraco de minhoca,
viajando em seu interior,
no conforto de uma rede.





Talvez, o hiato de palavras seja explicado nas palavras acima. No presente momento, sou menos palavras.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sem título

Algumas vezes, sinto que sou
capaz de voar,
de elevar a espiritualidade,
de me encontrar
com minha forma original.
Mas a humanidade
puxa pelos pés.
São lampejos,
novos continentes
que me dão a certeza
de que todos somos
capazes de cruzar os ventos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sem título

A vida é um fio imaginário,
tenaz, mas ainda um fio.
Um risco constante.
Enquanto tudo estiver bem,
tudo permanece risco.
Tudo permanece fio.