Sedimento fino

Sou argila,
sedimento fino em suspensão.
Toda intempérie me carrega.
Parte de mim é erosão.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Conexão

O toque entre duas bocas
gera uma conexão
entre dois indivíduos.
O indivíduo,
após todo o frenesi da atração,
do amor e da paixão,
após a tempestade
num oceano frio e ignorante de latência,
depois que, com a sua boca toca outra,
tem a sensação do avistamento.
Torna-se o descobridor do novo mundo
e lamenta
não antes ter zarpado
com a sua nau.

A boca alimenta o corpo e a alma.
Através dessa abertura
o alimento do corpo é conduzido.
Com o beijo,
a alma se torna autótrofa,
pois beijar
é surpreender de luz solar
um vegetal no meio da noite.
É criar um par de simetrias bilaterais.
É tornar o simples
um complexo.
A reta
uma curva.
Dois seres
apenas um.

Por um breve e confuso momento,
me ocorreu que,
talvez,
a superfície entre duas bocas
fosse espelho.
Que, talvez,
os meus lábios - e não os dela -
me alimentassem.
Mas, é fato que
sem ela,
sem seus lábios,
eu não poderia,
jamais,
realizar a fotossíntese.
É fato que a luz vem de longe
e beija a folha.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sem título

Tristeza não avisa.
Mas se pode prever
que nalgum momento chegará,
certeira,
pois é ciclo
na vida,
eustasia.
Saudade rebenta e afoga
quando com tristeza vem.
Persistente, até fazer fragmentar.
Ah, essa onda robusta da tristeza
afoga de surpresa.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sem título

Luz que me atravessa sem sofrer desvio.
Nada dela é absorvido.
Nada é refletido.
Luz que não cessa.
Luz branca que não se decompõe,
pois sou apenas um pedaço de vidro
que sonha em ser prisma
e decompor suas cores.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Sem título


Num universo,
fora do universo do universo dos demais,
dois estranhos sujeitos,
que não os sujeitos sujeitos a seu universo,
interagem internamente em seu universo,
dentro do universo do universo dos demais.
Os demais,
demais numerosos,
jamais poderiam saber
que se soubessem saber
da presença dos dois estranhos sujeitos
talvez, quem sabe,
o universo do universo deles
fosse o nosso universo.

sábado, 7 de julho de 2012

Sobre corpo e alma

Energia interage com matéria.
Simplesmente acontece.
Um dia, houve um acidente
e a interação dantes, tão significativa
quanto o toque do vento numa pá de catavento,
passou a ser simbiose.
Ganhou novo significado.
A vida aconteceu.
De poeira à Homo sapiens,
átomos, moléculas, verme, símio, ...,
a matéria se transforma.
A energia evolui e involui,
oscila.
Então, o que sou?
Sou matéria, morada de energia?
Energia, nômade do universo?
Ou um acidente numa usina eólica?

sexta-feira, 15 de junho de 2012

De volta à realidade

Muito mais do que a ocultação de uma "reunião de jovens carismáticos" é necessário para me entristecer. É mais do que isso que me tira do sério. Por vezes, me capto num relance de engodo sobre falsos incômodos flutuantes-oscilantes. Delírio, fantasia, engano... Farsa de mim. Não sou eu quem se aflige por pouco. Por tão pouco. Tampouco, com ilusões momentâneas da realidade. O ser nasce puro e a sociedade tende a sujar o seu sapato branco. Às vezes, eu tento lavar o meu sapato.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Sobre o que não volta mais

Momentos orbitam o tempo num intervalo de pensamento.
É quando eu lembro. Lembro bem, em tempo.
E me desloco, em lembrança, pela malha temporal,
porém, fincado no espaço presente
como pedúnculo,
como cartaz no mural,
pela perfeição do universo, que gera uma incoerência
entre duas dimensões.
Essas são palavras tão pensadas por alguém que,
movido por saudade, acreditou ser possível voltar
e retirar um foco de lembrança da órbita do tempo.